Está no que fazes

 “Queres de verdade ser santo?

- Cumpre o pequeno dever de cada momento; faz o que deves e está no que fazes.”

Caminho, 815. São Josemaria Escrivá.

 

            Nunca foi tão difícil estar no que fazemos como hoje. Estamos sempre em, no mínimo, dois lugares ao mesmo tempo: um do presente imediato, físico, e outro dos diversos tempos e espaços através do celular. Outras mídias nunca tiveram tanto poder de roubar nossa atenção e nos fazer jurar que conseguimos acompanhar todo o resto quanto o celular.

           Para atualizar o conselho de São Josemaria, escrito no início do século XX, não basta cumprir nossas tarefas com atenção, mas antes com atenção exclusiva. Quando o santo escreveu esse aforismo de Caminho, talvez se referisse à concentração que devemos ter naquilo que fazemos, ao esforço de evitar pensamentos contrários ou excessivos. Afinal, todos sabemos que, ao cumprir deveres, temos a tendência de reclamar ou de querer evadir por várias formas: seja ouvindo música, seja vendo TV ou – o mais usual atualmente – usando o smartphone (que pode executar as tarefas acima e inúmeras outras). Mas, conforme o pensamento do padre, inspirado em Santa Teresinha, só é possível santificar o cotidiano ao prestar atenção nele e, assim, ser intencional (palavra tão na moda) em relação ao que fazemos.

            A questão é a dependência causada por esse aparelho específico que não existia na época do texto e com o qual estamos aprendendo a lidar há uns quinze anos. Sem perceber, fomos fisgados por uma tela mais interessante e recompensadora do que a nossa realidade imperfeita. É uma concorrência desleal que a vida comum nunca poderá vencer. E isso pode nos tornar infelizes.

         Pessoalmente, vejo que a saída é reduzir o uso ao mínimo necessário, por razões de trabalho ou estudo. Eu realmente gostava mais da minha versão de 2010, antes de ter smartphone. Conseguia estar na leitura de um livro, por páginas e páginas seguidas, sem notificações ou lembranças de pesquisar algo. Conseguia estar na escrita de um texto, imersa em meus próprios pensamentos, ou em pensamentos de autores de livros, e não pensando em como uma Inteligência Artificial poderia me ajudar a escrevê-lo mais rapidamente. Em suma, conseguia fazer qualquer coisa sem lhe dar um paralelo virtual.

           Mas, para não viver de nostalgia, escrevi esse texto à mão, em um caderno simples que está sempre comigo. Depois, eu o editei no computador e o postei no meu blog (uma mídia “estática”). Acho que é um primeiro passo para estar mais no que faço e inspirar outros a estarem também. Comente aqui como foi estar neste texto por alguns minutos.

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